sábado, 21 de janeiro de 2017

Não digam às minhas filhas que elas são bonitas (pelo menos ao início!)



Estimado Mundo,

O meu nome é Layli Miller-Muro. Sou Bahá’í e advogada; fundei uma organização sem fins lucrativos chamada Tahirih Justice Center, cuja missão inclui proteger as mulheres imigrantes abusadas; e sou mãe de duas meninas e um rapaz.

Todos os dias no meu trabalho, vejo o impacto da sexualização das meninas e da enorme atenção que a sociedade dá à sua aparência. Em todo o mundo, as mulheres são transformadas em objectos - os seus corpos são a primeira coisa em que se repara e são vistos como tendo mais valor do que as suas mentes. Os resultados são devastadores. No meu trabalho, vejo mulheres e meninas vendidas para a escravatura sexual, violadas por homens (incluindo membros da própria família), forçadas a casar-se muito jovens e violentamente abusadas.

Percebi que as mulheres que conseguem superar as piores experiências e tribulações da vida costumam ter um profundo sentido interior do seu próprio valor espiritual, e cheguei à conclusão que pretendo - mais do que tudo - ensinar essa nobreza e essa auto-estima profundamente enraizadas a todos os meus filhos.

Assim, quando você um dia encontrar as minhas filhas, por favor, tente evitar, se possível, que o seu primeiro e único comentário seja sobre sua aparência física. O meu marido e eu temos trabalhado muito para lhes incutir a ideia de que o seu carácter, a sua mente e sua alma têm mais importância do que o seu aspecto físico - mas a realidade daquilo que as pessoas parecem valorizar na nossa cultura profundamente materialista parece muitas vezes desfazer os nossos melhores esforços.

Recentemente, a nossa filha de seis anos estava obcecada com a roupa que ia vestir e disse: “Se eu não estiver bonita as pessoas não são simpáticas para mim.” Infelizmente, ela está a aprender muito depressa a verdade sobre muitas interacções de adultos com meninas. Se algum de vós vir as minhas filhas, por favor, não deixe a primeira coisa que lhes diga seja "Estás tão bonita!" Já houve muitas pessoas que fizeram isso, e de certa forma, as minhas filhas já aprenderam que as pessoas acham que a aparência delas é muito importante.

Em vez disso, perguntem-lhes sobre os projectos de serviço em que elas estão a participar, sobre as suas colecções Lego, sobre os livros que estão a ler e os desportos que mais gostam. Foque as suas perguntas e o seu diálogo numa virtude ou num atributo espiritual que gostasse de encorajar.

Não me interpretem mal - não há nada de errado em ser, ou sentir-se, bonita. E é bom ouvir isso dos outros de vez em quando. Mas isso não deve ser o primeiro comentário – e o mais frequente – que as meninas devem ouvir. Isso envia-lhes uma mensagem de que isso é o mais importante. O louvor e a atenção reforçam o comportamento que queremos ver nos outros. A obsessão pela aparência não é o comportamento que desejamos.

Obrigado pela sua ajuda no combate às pressões sobre as meninas para, em primeiro lugar, serem bonitas. E obrigado por ajudar as minhas filhas, e todas as meninas do mundo, a valorizar os seus atributos interiores mais do que os exteriores:

Assim, é claro que a honra e o engrandecimento do homem devem ser algo mais do que riquezas materiais. Os confortos materiais são apenas um ramo, mas a raiz do engrandecimento do homem são os bons atributos e as virtudes que são os adornos da sua realidade. Estas são as aparências divinas, as bênçãos celestiais, as emoções sublimes, o amor e o conhecimento de Deus; sabedoria universal, percepção intelectual, descobertas científicas, justiça, equidade, veracidade, benevolência, coragem natural e força mental inata; o respeito pelos direitos e a manutenção de acordos e convénios; rectidão em todas as circunstâncias; servir a verdade em todas as condições; o sacrifício da própria vida para o bem de todos; bondade e estima por todas as nações; obediência aos ensinamentos de Deus; serviço ao Reino Divino; a orientação do povo e a educação das nações e raças. Esta é a prosperidade do mundo humano! Este é o engrandecimento do homem no mundo! Esta é a vida eterna e a honra celestial! ('Abdu'l-Bahá, Some Answered Questions, p. 79)

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Layli Miller-Muro é fundadora e directora do Tahirih Justice Center (www.tahirih.org), uma organização sem fins lucrativos de inspiração Bahá’í dedicada à protecção de mulheres e meninas contra abusos de direitos humanos. O seu envolvimento nesta organização valeu-lhe vários prémios e distinções, tendo sido mencionada no “150 Fearless Women in the World” (150 Mulheres Destemidas no Mundo) da Newsweek Magazine/Daily Beast. Vive com o marido e três filhos em Washington, DC (EUA).

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Um novo livro de Escrituras de Bahá’u’lláh


Foi ontem anunciado pelo Centro Mundial Bahá’í a publicação de um novo livro de Escrituras Bahá’ís. Este novo volume, intitulado Days of Remembrance, Selections from the Writings of Baha'u'llah for Baha'i Holy Days (Dias da Memória, Selecção de Escrituras de Bahá’u’lláh para os Dias Sagrados Bahá’ís) apresenta um conjunto de textos das Escrituras Bahá’ís traduzidos para inglês.

Este novo livro inclui quarenta e cinco textos revelados especificamente para, ou relacionados com, os nove dias sagrados anualmente celebrados pelos Bahá’ís. Esta publicação antecede a celebração dos bicentenários dos nascimentos de Bahá’u’lláh e do Báb, em 2017 e 2019, respectivamente, e para os quais as comunidades Bahá’ís em todo o mundo se estão a preparar.

Sobre a celebração dos dias sagrados, no prefácio deste novo livro afirma-se: “Esta memória tem uma dimensão pessoal, proporcionando um momento para reflexão sobre o significado destes eventos, e uma dimensão social, ajudando a aprofundar a identidade e a fomentar a coesão da comunidade.

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sábado, 14 de janeiro de 2017

Sou um Cidadão do Mundo



"Não sou nem ateniense nem grego, mas sim um cidadão do mundo." (Diógenes)

Alguém se lembra de ter ouvido falar de Diógenes na escola? Geralmente, pensamos nele como aquele filósofo grego antigo que deambulava com uma lanterna e dizia às pessoas que estava "à procura de um homem honesto".

Mas essa pequena história, com que Diógenes provavelmente pretendeu fazer um comentário irónico sobre a sua sociedade, é apenas uma pequeníssima parte da vida desse homem fascinante.

Diógenes de Sinope (a cidade na actual Turquia onde ele nasceu) também ficou conhecido como Diógenes, o Cínico - e não é o tipo de cínico mais fácil de reconhecer.

A escola cínica da filosofia grega começou com Diógenes. Ele sentia que o objectivo da vida incluía adquirir virtudes humanas e viver em harmonia com a natureza - e sentia que a maneira de fazer essas coisas era rejeitar a sociedade e moralidade convencionais, expressando as suas ideias filosóficas através de actos e não de palavras. Diógenes acreditava que os seres humanos só poderiam alcançar a felicidade ao desprender-se dos desejos - por coisas como a fama, riqueza, sexo e poder - e levando uma existência simples, natural, e não possuindo bens materiais.

Provavelmente influenciado pelos ideais budistas e pelos primeiros ensinamentos cristãos, a filosofia do cinismo de Diógenes espalhou-se pelo Império Romano no primeiro século EC.

Diógenes fez da sua filosofia o seu estilo de vida. Criticava as convenções, rejeitava bens, não usava sapatos mesmo no inverno e dormia numa grande bilha de barro na praça da cidade. Hoje as pessoas podem pensar em alguém como Diógenes como um sem-abrigo ligeiramente perturbado; mas no seu tempo ele satirizou Platão, interrompeu os seus discursos, ridicularizou os valores sociais corruptos e as instituições da sociedade grega, e escarneceu publicamente Alexandre, o Grande. A famosa história sobre a lanterna? Provavelmente, Diógenes andou com ela em Atenas durante o dia, para satiricamente apontar o facto de não se poder encontrar nenhum homem honesto na Grécia, dia ou noite.

Quando encontrou Alexandre, o Grande - famoso conquistador e conhecido como "Rei dos Reis" - Diógenes contemplava uma pilha de ossos humanos. Ele disse ao Rei, que tinha escravizado populações inteiras: "Estou à procura dos ossos de seu pai, mas não posso distingui-los dos de um escravo".

Quando Diógenes disse "Não sou nem ateniense nem grego, mas sim um cidadão do mundo", começou um movimento de massas. De repente, as pessoas intitulavam-se "cosmopolitas" - cosmos significando todo o mundo conhecido e polis significando cidade. Essa afirmação radical de cidadania mundial continha uma crítica acentuada ao sistema de cidades-estado que se guerreavam, e afectou todo o mundo civilizado à medida que se espalhava. Ajudou a iniciar a escola filosófica do estoicismo, que sustentava que cada pessoa pertence a duas comunidades: a comunidade local do seu nascimento e toda a comunidade humana. Em última análise, influenciou fortemente filósofos e pensadores Immanuel Kant, Jacques Derrida, Thich Nhat Hanh e muitos outros; e por fim, inspirou a formação do crescente movimento de Cidadãos Globais.

Os ensinamentos Bahá’ís incluem a perspectiva da cidadania mundial - tal como Diógenes e os cosmopolitas - mas os Bahá’ís trabalham activamente para tornar a cidadania mundial uma realidade, em vez de apenas um conceito filosófico. Bahá'u'lláh afirmou: "A terra não é senão um país e a humanidade seus cidadãos." 'Abdu'l-Bahá exortou todas as pessoas a considerarem-se cidadãos do planeta:

Os povos do futuro não dirão, "eu pertenço à nação de Inglaterra, de França ou da Pérsia"; pois todos eles serão cidadãos de uma nacionalidade universal - a família única, o país único, o mundo único da humanidade - e então essas guerras, ódios e lutas terminarão. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 18)

Acima de tudo, a Fé Bahá'í ensina, formula e exemplifica o ideal da unidade. Exorta-nos a derrubar as barreiras entre as pessoas e as nações. Encoraja-nos a expandir os nossos horizontes e ampliar a nossa visão, passando de uma identidade estritamente local, regional, étnica, racial ou nacional a uma cidadania global que podemos afirmar como nosso direito de nascimento espiritual.

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.


sábado, 7 de janeiro de 2017

E se as mulheres governassem o mundo?



Será que faria diferença nos esforços de paz se existissem mais mulheres a participar na governação do nosso mundo, em todos os níveis?

No passado, o mundo viu mulheres a chefiar governos, e de acordo com as Nações Unidas, temos hoje 18, num total de quase 200 países no mundo. Ainda não parece ter feito uma grande diferença na política global, mas talvez o número de mulheres em posições de liderança internacional ainda seja demasiado pequeno para ver novas tendências emergir nesse mar de masculinidade.

Então, como podemos escapar da gravidade dos sistemas que herdámos e construir modelos de governação mais equilibrados, que reflictam o futuro equilibrado e pacífico que realmente pretendemos?

A história mostra que os mais poderosos e os mais agressivos entre nós costumam governar. Mas esse domínio começou gradualmente a mudar para uma era mais pacífica que enfatiza os direitos humanos e as soluções diplomáticas; trata-se de uma tendência que foi analisada por pensadores como Steven Pinker e Mary-WynneAshford. Ambos acompanharam o nosso progresso regular em direcção a menos violência e menos guerras, apesar das impressões generalizadas em sentido oposto.

É interessante notar que esta mudança a longo prazo foi prevista como muito frutuosa no futuro pelos ensinamentos Bahá’ís:

O mundo no passado foi governado pela força e o homem tem dominado a mulher devido às suas qualidades de maior força e agressividade, tanto do corpo como da mente. Mas o equilíbrio já está a mudar; a força está a perder o seu domínio, e o estado de alerta mental, a intuição e as qualidades espirituais de amor e serviço, em que a mulher é forte, estão a ganhar ascendência. Consequentemente, a nova era será uma época menos masculina e mais permeada com os ideais femininos, ou, para falar mais precisamente, será uma época em que os elementos masculinos e femininos da civilização estarão mais equilibrados. ('Abdu'l-Bahá, de uma entrevista a um jornal em 1912, Star of the West, Volume 2, p. 4)

É claro que associar as mulheres com a paz suscitará muitas vezes a resposta de que as mulheres não são inerentemente mais pacíficas do que os homens. É bem verdade que não devemos fazer juízos antecipados com base no género, raça ou etnia. Mas colectivamente, em todos estes casos, há um
motivo para querer que os números reflictam a mistura social. Isto implica superar expectativas e padrões de pensamento tão enraizados que até parecem invisíveis.

Lembro-me de ser encorajada, quando era jovem na década de 1970, a "entrar no mundo dos homens" e a "competir em pé de igualdade". Esta terminologia era inquestionável nessa época, mesmo entre as feministas. Desde então, já percorremos um longo caminho. O próximo passo parece óbvio: apreciar e respeitar igualmente as diferenças de género. Os ensinamentos Bahá’ís dizem que quando as mulheres possuírem orgulhosamente as qualidades tradicionalmente consideradas femininas e os homens desejarem essas qualidades, estaremos no caminho para uma idade de ouro:

A emancipação das mulheres, a realização da plena igualdade entre os sexos, é um dos pré-requisitos mais importantes, embora menos reconhecidos, para a paz. A negação dessa igualdade é uma injustiça contra metade da população mundial e promove nos homens atitudes e hábitos prejudiciais que são levados da família para o local de trabalho, para a vida política e, finalmente, para as relações internacionais. Não há motivos morais, práticos ou biológicos, sobre os quais essa negação possa ser justificada. Somente quando as mulheres forem recebidas como parceiras plenas em todos os campos dos empreendimentos humanos, será criado o clima moral e psicológico no qual a paz internacional pode emergir. (A Casa Universal de Justiça, A Promessa da Paz Mundial, p. 3)

É encorajador saber que ensinamentos Bahá’ís como estes já foram considerados radicais, em todos os locais do mundo. Desde o seu surgimento em 1844 no Irão, a igualdade dos sexos tem sido um dos ensinamentos fundamentais da Fé Bahá'í. Sempre considerei esta visão a longo prazo como inspiradora e como um bom antídoto para qualquer mal-estar político passageiro.

No Dia Internacional da Mulher em 1993 - há quase 25 anos atrás - a declaração publicada pelas Nações Unidas expressou uma verdade que continua a ser importante:

A luta pelos direitos das mulheres e a tarefa de criar uma nova Organização das Nações Unidas capaz de promover a paz e os valores que a alimentam e sustentam são uma e a mesma coisa. Hoje - mais do que nunca - a causa das mulheres é a causa de toda a humanidade.

Apesar do progresso constante mas desigual, esse momento decisivo para escolher colectivamente a paz mundial ainda nos tem escapado. Exigirá um enorme esforço e uma ampla mudança filosófica para construir conscientemente sistemas de governação comprometidos com a colaboração mútua, com a não-violência, e com a consolidação do espírito humano. Intuitivamente, é lógico que um maior envolvimento das mulheres aceleraria esta evolução cultural, e que será necessário um número suficiente para conseguirmos o equilíbrio. Mais cedo ou mais tarde, chegaremos lá.

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Sheila Flood vive com o marido na British Columbia (Canadá) onde participa activamente em actividades Bahá’ís. É também colaboradora do blog Spiritually Speaking.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Os Reis Magos, nas Escrituras Bahá'ís...

Para os meus amigos cristãos que hoje celebram o Dia de Reis, uma pequena curiosidade das Escrituras Bahá'ís.
A imagem é de um quadro de Albrecht Dürer.



sábado, 31 de dezembro de 2016

A Religião segundo os Grandes Pensadores



A religião é a resposta da humanidade à orientação Divina. Deus inicia-a através dos Profetas e nós observamos, ignoramos, rejeitamos ou distorcemos essa orientação. A religião é a professora e a geradora da civilização - uma estrutura social e cultural construída sobre virtudes universais como a bondade, a compaixão, o serviço, a veracidade, a paz, a justiça, a sabedoria e a unidade. Seguidamente, apresento um conjunto de citações que seleccionei ao longo dos anos, definindo a religião como era entendida pelas mentes e corações dos Profetas de Deus e grandes pensadores.

Al-Ghazali: “O cerne da experiência religiosa não pode ser apreendido pelo estudo, mas apenas pela experiência imediata, prova, êxtase e mudança moral”.

Immanuel Kant: “Duas coisas enchem a mente com espanto e temor crescentes... o céu estrelado acima de nós... e a lei moral dentro de nós...”

Georg Hegel: “A religião é a consciência de Deus... o Espírito Absoluto (ou a potencialidade pura) ... que se reconcilia progressivamente com a autoconsciência humana (nas formas de ciência, arte, religião e filosofia)”.

William Ellery Channing: “A luz Infinita estaria para sempre oculta de nós, se não lançasse os raios da aurora e brilhasse dentro de nós”.

Karl Marx: “A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, assim como é o espírito de uma situação sem espírito. É o ópio do povo”.

Arnold Toynbee: “A religião é a força condutora da história... ajuda a humanidade a transcender o egocentrismo ... e descobre uma relação directa e pessoal com a realidade transcendente dentro, atrás e além do universo”.

Carl Jung: “A religião autêntica é... uma experiência viva e irrefutável de uma relação intensamente pessoal entre o homem e uma autoridade extra-mundana”.

Robert Bellah: “Deixem-me definir a religião como um conjunto de formas simbólicas e actos que relacionam o homem com as condições finais da sua existência”.

Patricia Mische: “A religião evoluiu a partir de um sentido humano de uma realidade maior do que o eu, maior do que a soma total de factos, fenómenos físicos, económicos, políticos ou sociais quantificáveis... As religiões constituem uma força moral poderosa... uma forma de governação nos assuntos humanos”.

Livro de Tiago: “A religião pura e sem mácula diante daquele que é Deus… é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e não se deixar contaminar pelo mundo”.

Bahá’u’lláh: “A religião é o principal instrumento para o estabelecimento da ordem no mundo e tranquilidade entre os seus povos… é uma luz radiante e uma fortaleza inexpugnável par a protecção e bem-estar dos povos do mundo”.

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Harold é um educador inter-religioso mestrados em educação, religião e filosofia; gosta de facilitar o entendimento e a cooperação inter-religiosa. Lecciona cursos sobre religiões mundiais para audiências universitárias e comunitárias. O seu livro Founders of Faith: The Parallel Lives of God’s Messengers sobre os ensinamentos de Moisés, Zoroastro, Krishna, Buda, Cristo, Maomé e Bahá’u’lláh surgiu da sua experiência nestes cursos. Está agora a escrever um livro sobre a história da humanidade e o papel da religião na ascensão, queda e renovação das civilizações.


quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

“Princípio” ou “Começo” ?

A referência ao início (ou origem) da criação (ou do mundo) é comum aos textos sagrados do Judaísmo, Cristianismo e Islão. Trata-se de uma alusão a um momento que está para lá dos registos históricos ou da compreensão humana. Tentando entender alegoricamente, diríamos que se trata de uma referência à “Primeira Causa”, ou a algo que, sendo a origem de tudo, está para lá do tempo, tal como o entendemos. E se considerarmos a criação como eterna (tal como nos dizem as Escrituras Bahá’ís), podemos dizer que se trata de um momento de transformação primordial, em que a criação começa a assumir a forma que tem hoje.

No texto bíblico este conceito é descrito com a palavra “princípio”. Vejamos alguns exemplos da tradução de João Ferreira de Almeida:

No princípio criou Deus os céus e a terra… (Gn 1:1)

Como falou pela boca dos seus santos profetas, desde o princípio do mundo (Lc 1:70)

Porém, desde o princípio da criação, Deus os fez macho e fêmea (Mc 10:6)

Porque haverá então grande aflição, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem tampouco há de haver. (Mt 24:21)

Eu sou o Alfa e o Omega, o princípio e o fim, diz o Senhor, que é, e que era, e que há-de vir, o Todo-Poderoso. (Ap 1:8)

As traduções Capuchinhos e Figueiredo (1821) também usam a palavra “princípio” para descrever este conceito. Note-se ainda que o próprio Pe. António Vieira também usa a palavra “princípio” para aludir à origem do mundo (ver Sermão de Sto. António aos Peixes).

Na tradução inglesa da Bíblia (King James Version) – cujo estilo é modelo para as traduções das Escrituras Bahá’ís – este conceito é descrito com a palavra “beginning”.

O dicionário Inglês-Português da Porto Editora apresenta os seguintes significados para a palavra inglesa beginning:

(nome) começo; princípio; início;
at the beginning of no princípio de;
at the very beginning mesmo no início;
from the beginning desde o princípio;
in the beginning no princípio
from beginning to end do princípio até ao fim

No entanto, nas traduções portuguesas das Escrituras Bahá’ís, este conceito foi traduzido com a palavra “começo”. Vejamos alguns exemplos:

E foi esta incomparável Fonte de sabedoria que no começo da fundação do mundo ascendeu a escada do significado interior e, entronizada no púlpito da expressão, através da operação da Vontade divina, proclamou duas palavras. (Epístolas de Bahá’u’lláh, Palavras do Paraíso)

Perguntaste sobre o assunto da Volta. Sabe tu que o fim é semelhante ao começo. Assim como consideras o começo, de igual modo deves considerar o fim, e ser daqueles que verdadeiramente percebem. Não, antes, considera tu o começo como sendo o próprio fim, e assim, inversamente, a fim de poderes adquirir uma percepção clara. (Epístolas de Bahá’u’lláh, Súriy-i-Vafá)

As maravilhas de Sua generosidade não podem cessar, e jamais será detido o fluxo de Sua graça misericordiosa. O processo de Sua criação não teve começo, nem poderá ter fim. (Selecção dos Escritos de Bahá’u’lláh, XXVI)

Poderá ele conceber para esses Luminares Divinos, essas Luzes resplandecentes, um começo ou um fim? (Selecção dos Escritos de Bahá’u’lláh, XXVII)

Desde o começo que não tem começo, a insígnia que proclama as palavras "Ele faz qualquer coisa que Lhe apraza" tem sido desdobrada em todo o seu esplendor diante de Seu Manifestante. (Selecção dos Escritos de Bahá’u’lláh, CII)

Percebe-se que, ao usar a palavra beginning, a tradução inglesa das Escrituras pretende reflectir o mesmo conceito que existe no texto bíblico. Para o leitor de língua inglesa, minimamente familiarizado com a Bíblia, torna-se fácil perceber que o conceito é comum ao Cristianismo e à Fé Bahá’í.

No entanto, para o leitor de língua portuguesa, familiarizado com a Bíblia, a utilização da palavra “começo” em vez de “princípio” pode levá-lo a questionar se o conceito é comum ao Cristianismo e à Fé Bahá’í. Assim, é legítimo questionarmos porque é que a tradução inglesa reflecte um conceito bíblico e a tradução portuguesa não o faz.

Lembro que uma tradução não é uma mera substituição de termos de uma língua por outra. Os contextos culturais das línguas de origem e destino devem ser considerados sempre que se faz uma tradução. E tratando-se de uma tradução de um texto religioso, é fundamental que os tradutores estejam familiarizados com a literatura religiosa em ambas as línguas, de forma a garantir a qualidade e o rigor das traduções.

Espero, pois, que futuras edições destas traduções portuguesas das Escrituras Bahá’ís sejam corrigidas e a palavra “princípio” seja usada para descrever este conceito de origem da criação.

sábado, 24 de dezembro de 2016

O primeiro Natal de 'Abdu'l-Bahá



Por um único motivo foram os Profetas, sem excepção, enviados à terra. Foi por isso que Cristo Se manifestou, foi por isso que Bahá’u’lláh ergueu o apelo do Senhor: para que o mundo do homem se torne o mundo de Deus; que este domínio inferior se torne o Reino; que esta luz negra, esta perversidade satânica se transforme nas virtudes do homem – e a unidade, a camaradagem e o amor sejam conquistados por toda a raça humana, que a unidade orgânica reapareça e os alicerces da discórdia sejam destruídos e a vida eterna e a graça eterna sejam a colheita da humanidade. (Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, #15)

Hoje quero falar-vos sobre o primeiro Natal de ‘Abdu’l-Bahá em Inglaterra. Mas antes disso vamos preparar o cenário, explorando a história do feriado, que poucas pessoas compreendem, ou conhecem.

Alguma vez ouviu falar de Sexto Júlio Africano?

Provavelmente não. Inicialmente, Sexto Júlio era um soldado pagão nas legiões romanas, no final do séc. II; depois converteu-se ao Cristianismo e tornou-se um historiador e autor Cristão muito viajado. Tal como o seu último nome sugere, ele era provavelmente africano - possivelmente oriundo da região a que hoje chamamos Líbia - falava várias línguas e viajou muito pelo Médio Oriente.

Sexto Júlio Africano escreveu uma história do mundo em cinco volumes, chamada Chronographiai. Tanto quanto se sabe, nenhum exemplar sobreviveu, mas alguns dos seus escritos ainda existem, graças a historiadores posteriores, como Eusébio, e tiveram um grande impacto - em pelo menos dois aspectos - sobre quem hoje vive na idade moderna.

Primeiro, ele determinou a idade do mundo.

Depois, ele determinou a data exacta do Natal.

Foi assim que ele fez: no seu trabalho de cinco volumes, Sexto Júlio escreveu a cronologia do mundo desde a história da criação no livro do Génesis até ao ano 221 EC. Esse período de tempo - meticulosamente reunido e calculado a partir de uma leitura cuidadosa de toda a história genealógica e das várias “descendências” na Bíblia Hebraica e no Novo Testamento - totaliza 5723 anos, segundo as suas contas. Os seus cálculos apresentam 5500 anos entre a criação e a encarnação (ou Anunciação) de Jesus Cristo, que colocou a imaculada concepção de Jesus em 25 de Março do ano 1 AEC. Adicionando os nove meses do tempo normal de gestação humana, Júlio obteve o 25 de Dezembro, o dia em que o mundo celebra o Natal.

Já no séc. II EC ninguém conseguia precisar a data em que tinha ocorrido o nascimento de Cristo. Muito antes do uso generalizado de calendários, certidões de nascimento ou celebração regular de nascimentos, a grande distância temporal tornava impossível a verificação de datas históricas. Por esse motivo, Sexto Júlio Africano teve de fazer cálculos. Apesar das suas evidências, alguns historiadores e cientistas – incluindo Isaac Newton – acreditam que o mundo cristão escolheu o 25 de Dezembro porque os Romanos celebravam o Solstício de Inverno nesse dia, a que chamavam Bruma ou Sol Invicto.

Uma rua de Londres, Natal de 1911
Mas Sexto Júlio calculou a data segundo a cronologia bíblica e dominou a opinião popular e o calendário gregoriano durante mil e oitocentos anos. Os seus cálculos originais são a razão que levam alguns fundamentalistas a insistir que o mundo tem apenas seis mil anos de idade, e também são o motivo para observamos o nascimento de Cristo no dia 25 de Dezembro. Com a excepção da Igreja Ortodoxa Oriental, que normalmente celebra o Natal no dia 7 de Janeiro, o 25 de Dezembro tornou-se o Natal para as massas – o que nos traz de volta ao tema do primeiro Natal do 'Abdu'l-Bahá.

Só em 1911, quando viajou para o Ocidente, ‘Abdu’l-Bahá teve o primeiro contacto com as celebrações modernas do Natal, na sua forma Ocidental. Libertado após 40 anos de exílio, chegou a Inglaterra, vindo do Médio Oriente e no meio do agitado calendário de discursos, reuniões e palestras, ‘Abdu’l-Bahá…

…assistiu à peça “Eager Heart” (Coração Ansioso), uma peça de Natal na Church House, Westminster, a primeira peça de teatro que Ele assistiu e cuja representação gráfica da vida e sofrimentos de Jesus Cristo O levaram às lágrimas”. (Shoghi Effendi, God PassesBy, p. 284)

A peça, escrita pela poetisa e dramaturga inglesa Alice Mary Buckton, que mais tarde recebeu 'Abdu'l-Bahá na sua casa em Byfleet Surrey, conta a história trágica de uma mulher que se prepara fervorosamente para a visita Natalícia de Jesus, Maria e José, mas depois vacila quando uma família de refugiados sem-abrigo aparece à sua porta. Leia a peça em sua forma original aqui.

Esta descrição da reacção profundamente emocional de 'Abdu'l-Bahá à peça Eager Heart, escrita por Lady Blomfield no seu livro The Chosen Highway, menciona uma ocorrência notável:

[‘Abdu’l-Bahá] chorou durante a cena em que a Criança Sagrada e os Seus pais, vencidos pela fadiga e sofrendo com a fome e a sede, foram recebidos pela hesitação do Coração Ansioso em deixá-los entrar no abrigo de repouso que ela tinha preparado; obviamente, ela não conseguiu reconhecer os visitantes sagrados. Posteriormente, [‘Abdu’l-Bahá], juntou-se ao grupo de actores.

Foi uma cena impressionante. Num cenário oriental. O Mensageiro nas suas vestes orientais, falando-lhes, nas suas belas palavras orientais, sobre o significado Divino dos eventos que tinham sido representados. (The Baha’i World, Volume 4, p. 379)

Tente imaginar esta cena de Natal, se for capaz. Após o fim dos aplausos e depois do público se ter retirado, no palco, entre os cenários da peça, o filho do mais recente profeta do Médio Oriente, vestido com a Sua túnica, fala aos actores sobre os verdadeiros sofrimentos de Jesus Cristo, tal como semelhantes aos sofrimentos de Bahá’u’lláh e da Sua família. Recentemente libertado após quatro décadas de exílio e prisão, ‘Abdu’l-Bahá reúne um grupo de actores ao Seu redor e explica o verdadeiro significado do Natal.

E porque os Bahá’ís acreditam que todos os profetas de Deus são semelhantes, aqueles actores incrivelmente afortunados, em vez de se basearem em interpretações demasiado humanas sobre o significado e o momento do Natal, escutam isso literalmente da fonte.

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Abandonar as Pretensões Religiosas de Exclusivismo e Finalidade


As religiões mundiais podem abandonar as suas pretensões de exclusividade e finalidade?

Construir sociedades inclusivas exige uma profunda mudança de mentalidade, é a opinião da Comunidade Internacional Baha'i (BIC) num discurso na Cimeira Global sobre Religião, Paz e Segurança realizada no passado mês de Novembro, no Palácio das Nações, em Genebra.

Com o apoio da União Europeia e do governo de Espanha, o evento foi co-organizado pelo Escritório das Nações Unidas para a Prevenção do Genocídio e a Responsabilidade de Proteger, bem como pela Associação Internacional para a Defesa da Liberdade Religiosa. Concentrou-se no papel e importância da liberdade religiosa na prevenção do extremismo violento e dos crimes de atrocidade e explorou a relação entre estes.

Os participantes incluíram o Conselheiro Especial da ONU para a Prevenção do Genocídio, Adama Dieng; Assessor Principal da Cultura do Fundo de População das Nações Unidas, Azza Karam; Embaixador Geral da Aliança das Civilizações, Ministério dos Negócios Estrangeiros e Cooperação da Espanha, Belen Alfaro Hernandez; e o Enviado Especial da União Europeia para a Promoção da Liberdade Religiosa ou Crença fora da UE, Jan Figel, entre outros.

Dirigindo-se ao fórum, Diane Ala'i, representante da Comunidade Internacional Bahá'í para as Nações Unidas em Genebra, falou sobre o papel crítico que a liderança religiosa desempenha no desenvolvimento de mentalidades inclusivas e tolerantes. "Construir sociedades pacíficas e salvaguardar a liberdade de religião e crença dependem do abandono das pretensões de exclusividade e finalidade por líderes religiosos", afirmou.

Ala'i também discutiu a importância de cultivar a unidade entre populações diferentes. "Viver lado a lado não é suficiente", explicou. "Pessoas de diferentes crenças devem aprender a viver juntas".

"Estamos a descobrir", prosseguiu, "que o serviço colectivo ao bem comum é um poderoso factor para dissipar mal-entendidos entre as pessoas".

Mais uma vez, existe alguma acção no mundo que seria mais nobre que o serviço ao bem comum? Há alguma bênção maior concebível para um homem, do que ele tornar-se a causa da educação, do desenvolvimento, da prosperidade e da honra dos seus semelhantes? Não, pelo Senhor Deus! A mais elevada honra de todas é que as almas abençoadas segurem as mãos dos desamparados e as libertem da sua ignorância, humilhação e pobreza, e com motivos puros e somente por causa de Deus, se levantem e se dediquem energicamente ao serviço das massas, esquecendo-se da sua própria vantagem mundana e trabalhando apenas para servir o bem comum. (‘Abdu'l-Bahá, The Secret of Divine Civilization, p. 103)

Baseando-se no exemplo da resposta da comunidade Bahá’í no Irão à perseguição patrocinada pelo Estado, Ala’i explicou: "A comunidade tem sido capaz de contribuir para a mudança de corações e mentes no país através da resistência construtiva que tem demonstrado face a décadas de opressão, trabalhando lado a lado com outros cidadãos para o melhoramento da sociedade iraniana."

"Na sua abordagem construtiva à mudança social, testemunhou um nível crescente do apoio de iranianos dentro e fora do país nos últimos anos."

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terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Assembleia Geral da ONU condena o Governo Iraniano

Pela 29ª vez desde 1985, a Assembleia-Geral das Nações Unidas condenou o governo iraniano devido à situação dos direitos humanos naquele país. O texto da resolução - apresentado pelo Canadá e patrocinado por outros 41 países - foi adoptado com 85 votos a favor, 35 contra e 63 abstenções.

Intitulado “Situação dos Direitos Humanos na Republica Islâmica do Irão”, o texto da resolução expressa "séria preocupação" com a alta taxa de execuções no Irão sem protecções legais, uso contínuo de tortura, detenções arbitrárias generalizadas, limites rigorosos à liberdade de reunião, expressão e crença religiosa, e discriminação contínua contra mulheres, minorias étnicas e religiosas, incluindo os Bahá’ís.

"A votação de hoje deixa claro que o mundo continua profundamente preocupado com o modo como o Irão trata os seus próprios cidadãos, ao mesmo tempo que levanta questões sobre a genuína vontade do Irão em cumprir as suas obrigações como membro da comunidade internacional", disse Bani Dugal, representante da Comunidade Internacional Bahá'í nas Nações Unidas.

"Infelizmente, a lista de violações dos direitos humanos no Irão é longa", continuou Dugal. "Apesar dos representantes iranianos negarem, é difícil perceber sinais de progresso. Isto é especialmente verdadeiro para os Bahá'ís iranianos que enfrentam, entre outras formas de opressão, uma política de "apartheid económico" por parte do seu governo, que a qualquer momento os pode privar de empregos, educação e liberdade para praticar Sua religião conforme dita a sua consciência."

"No início de Novembro, por exemplo, 124 lojas e empresas Bahá'ís foram seladas pelo governo depois dos seus proprietários fecharam por dois dias para observar um importante dia sagrado Bahá’í. Além disso, os Bahá'ís continuam impedidos de frequentar livremente a universidade e estão sujeitos a todo o tipo de restrições. Também enfrentam detenção arbitrária e prisão por actividades religiosas legítimas", acrescentou Dugal.

Dugal salientou que cerca de 86 Bahá'ís estão actualmente presos e que, desde 2005, mais de 900 Bahá’ís foram presos e pelo menos 1100 incidentes de exclusão económica foram documentados. "A situação não melhorou sob a administração do presidente Hassan Rouhani", acrescentou.

Entre outras coisas, a resolução hoje aprovada pede ao Irão que elimine "todas as formas de discriminação, incluindo restrições económicas" contra as minorias religiosas no Irão. Também pede a libertação de "todos os praticantes religiosos detidos devido à sua participação ou actividades em nome de um grupo religioso minoritário reconhecido ou não reconhecido, incluindo os sete líderes Bahá’ís".

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sábado, 17 de dezembro de 2016

A Revolução Científica libertou a Ciência da Religião?




A religião e a ciência são duas asas com as quais a inteligência do homem pode subir às alturas, com as quais a alma humana pode progredir. Não é possível voar apenas com uma asa! Se um homem tentar voar apenas com a asa da religião cairá rapidamente no atoleiro da superstição, enquanto se tentar apenas com a asa da ciência não conseguirá qualquer progresso, mas cairá no lamaçal desesperante do materialismo. (‘Abdu’l-Bahá, excerto de uma palestra na Rue Camoens, Paris, 12-Novembro-1911)

A Revolução Científica libertou a ciência da religião. A nova ciência libertou o espírito da matéria. A razão e a experiência substituíram a revelação como fonte de conhecimento no mundo. Após a Revolução Científica tornou-se inevitável que Deus acabasse por ser totalmente afastado da natureza e que a ciência negasse a existência de Deus. (Margaret J. Osler, Professora de História e Professora Adjunta de Filosofia na Universidade de Calgary e autora do livro Reconfiguring the World: Nature, God,and Human Understanding in Early Modern Europe)

No seu ensaio no livro Galileo goes to Jail, a professora Osler prossegue o raciocínio anterior com estas palavras:

“Estas afirmações não fundamentadas fizeram o seu percurso na história popular da ciência e são frequentemente repetidas”. Osler apresenta uma lista de pessoas das facções religiosa e secular do debate que “repetem este mantra reforçando a crença de que o séc. XVII testemunhou o divórcio entre ciência e religião”.

Acho interessante que ela use a ideia de divórcio – como se a ciência e a religião fossem um casal numa crise de meia-idade que trocam a sua vida a dois por fantasias de juventude e carros desportivos. Olhando para o álbum dos anos em que ciência e religião estiveram juntas, é claro que a palavra não foi escolhida por acaso.

Até ao século XIX, a ciência ainda não era ciência; era “filosofia natural” ou “história natural”. Nem existiam cientistas, conhecidos como tal. Os homens e mulheres que se dedicavam à ciência eram, muito frequentemente, pessoas de fé, e muitas vezes, membros do clero. Como referi anteriormente, a filosofia natural era parte integrante dos currículos de todas as universidades medievais, e tinha poucas referências à doutrina da Igreja. A teologia era ensinada como uma área de estudos distinta, numa faculdade especializada.

A filosofia natural focava-se em temas como a origem do universo ou a Primeira Causa, as leis que regiam a criação e a sua concepção, a natureza da alma e do corpo humano. Nesses tempos, a ciência incipiente estava próximo do significado do seu nome scientia – isto é, o conhecimento real da essência das coisas. Aos olhos de alguns, isto impediu a “filosofia natural” de se tornar uma verdadeira ciência (scientia) porque as observações dos seres humanos eram imperfeitas, e consequentemente incapazes do nível de rigor necessário para conhecer a essência de qualquer coisa.

Johannes Kepler
Quando li sobre a história da filosofia mecânica, que tenta explicar todos os fenómenos naturais em termos mecanicistas, assumi que os seus promotores pretendiam eliminar Deus do processo. Mas fiquei surpreendida ao descobrir que eles eram profundamente religiosos. Entre eles incluíam-se luminárias como Gassendi, Descartes e Boyle. Até mesmo Johannes Kepler, com a sua certeza que Deus tinha criado um universo que exibia ordem e harmonia mecânica, podia ser contado entre os proponentes da filosofia mecânica.

A analogia que me vem à ideia quando penso na alegada dicotomia entre filosofia mecânica e filosofia espiritual é a escrita. Quando penso no que é necessário para escrever um romance desde o primeiro brilho nos olhos até ao último parágrafo, vejo dois grandes processos em funcionamento: místico e mecânico. O místico inclui a geração da ideia para a história – o nascimento e génese das personagens, os momentos de inspiração e voo da imaginação, a paixão que liga eventos, personagens e linhas do enredo e traduzi-lo por palavras. Por outro lado, a actividade mecânica de passar estas palavras e ideias para uma forma física – escrever, tal como escrevi este texto – exige que que elas sejam elaboradas de forma a serem experimentadas por outras pessoas.

Estes dois processos dependem mutuamente um do outro. As ideias ficam no campo dos sonhos se não as colocamos no papel; se isso acontecer, nunca se tornarão uma história. Por outro lado, sem essas ideias, essas interligações, essas personagens, o meu amor por elas e a minha paixão pela história, não haverá nada para o processo mecânico registar, e também não haverá história. Parafraseando a professora Osler: até numa criação mecânica há espaço (ou necessidade) de um propósito e de um desenho.

O romance existe porque eu pego no produto do meu processo intelectual/espiritual e aplico-lhe o processo mecânico. As palavras que escrevo revelam o intelecto por trás de si. Também são evidências do processo espiritual.

Não me surpreende descobrir que vários filósofos naturais expressaram a opinião de que, tal como disse Osler, "a filosofia natural, devidamente seguida, leva ao conhecimento do Criador". Entre os que sustentavam essa visão estava Lord Kelvin (físico matemático e engenheiro) que aconselhou:

Não tenham medo de ser livre pensadores. Se pensarem com força suficiente, serão forçados pela ciência a acreditar em Deus, que é a base de toda Religião. Descobrirão que a ciência não é antagónica, mas útil à religião. (William Thomson, 1º Barão Kelvin)

Opiniões semelhantes têm surgido de vozes religiosas – especialmente de Bahá'u'lláh, que escreveu "O princípio de todas as coisas é o conhecimento de Deus", e do Seu filho 'Abdu'l-Bahá, que escreveu: "A ciência é o esplendor do Sol da Realidade, o poder de investigar e descobrir as verdades do universo, o meio pelo qual o homem encontra um caminho para Deus".

Isaac Newton escreveu no Principia que:

... todo o discurso sobre Deus é derivado de uma certa semelhança das coisas humanas, que, embora não sendo perfeita, é, no entanto, um certo tipo de semelhança... E abordar o Deus dos fenómenos é certamente parte da filosofia natural.

Por outras palavras, por muito imperfeita que seja a nossa capacidade de compreensão, a criação pode dizer-nos alguma coisa sobre as qualidades do Criador, tal como a minha escrita diz ao leitor algo sobre mim.

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Texto original: Did the ScientificRevolution Liberate Science from Religion? (www.bahaiteachings.org)

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.